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Caminhos Marinhos

Caminhos Marinhos

Outubro 27, 2025

Não considero que seja um livro para todos. Demorei o meu tempo a lê-lo, porque alguns momentos eram tremendamente angustiantes e dolorosos. Emocionava-me e tinha dificuldade em avançar. Precisei de pausas para assimilar o que lia e acalmar a dor que me provocava.

Este é um livro extremamente intimista. Fala sobre relações humanas, vícios, amor, perda e luto. Fala-nos sobre como tudo é imperfeito e belo; e de como esta dicotomia funciona em harmonia. O seu título assim o confirma: Em Tudo Havia Beleza. Mesmo na dor, na perda e no luto.

Na minha opinião, foi dos livros mais bonitos que já li. Apesar de ter partes mais cruas que me incomodaram. Foram páginas e páginas em que me deparei com o meu maior medo: a morte; a perda dos meus pais. E percebi como o autor viveu (e vive) esta situação.

A vida dói, mas é cheia de beleza.

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Outubro 24, 2025

"The Storied Life of A.J. Fikry" é um romance que celebra o poder dos livros e da leitura como motores de empatia, transformação e reencontro. Gabrielle Zevin constrói uma narrativa doce, centrada em A.J. Fikry, um livreiro solitário e amargo cuja vida muda radicalmente após um acontecimento inesperado que o leva até Maya. O enredo é, em essência, uma carta de amor às livrarias independentes e à comunidade que nasce em torno delas.

O leitor sente-se rapidamente integrado naquele universo pequeno e acolhedor, onde cada personagem parece saído de uma estante familiar. No entanto, a autora recorre a muitos clichés emocionais, desde o homem amargurado que se redime, à criança que muda tudo, à comunidade que se une...

A história é, sem dúvida, querida no melhor e no pior sentido da palavra. Toca pela sinceridade, mas falta-lhe a densidade emocional ou a complexidade psicológica que poderia elevá-la. O leitor acaba por se cansar um pouco da doçura insistente e da sensação de que tudo converge para o mesmo tipo de conforto narrativo.

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Outubro 23, 2025

Com este livro Gabriel García Márquez revela-se não só como o grande romancista que era, mas também como jornalista observador. Honestamente, este livro conquista pela sua importância histórica e o detalhe da escrita. É uma obra que oferece uma visão singular da União Soviética e de uma Europa dividida pelas ideologias e pela guerra.

É um estilo de escrita bem distante do que estamos habituados em Gabo. O realismo mágico foi posto de parte e é apresentada uma prosa direta, lúcida e impregnada de ironia subtil. Márquez descreve o quotidiano da Europa do Leste com uma curiosidade genuína e um ceticismo prudente.

O tom jornalístico marca toda a narrativa, com o autor a escrever sem se deixar dominar pelo entusiasmo ideológico que caracterizava muitos intelectuais latino-americanos diante do bloco socialista. A objetividade não é aqui sinónimo de frieza, mas de ética da observação. O autor regista o que vê, desde a pobreza material ao entusiasmo revolucionário e o medo latente, e deixa que o leitor tire as suas próprias conclusões.

Mais do que um relato de viagem, este livro é um exercício de memória histórica. Hoje, funciona como um espelho da mentalidade de uma época e como um alerta sobre a fragilidade das utopias políticas.

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Outubro 19, 2025

Este livro fez-me perceber o porquê de João Tordo ser merecedor do prémio Saramago e do porquê de ser um escritor tão admirado. Admito que ainda não me tinha ocorrido o clique com o autor. Os livros anteriores que li acabaram por me saber a pouco e fui adiando o reencontro. Mas agora que aconteceu, valeu bem a pena.

As Três Vidas conta a história de um personagem de origens modestas e com algumas dificuldades na sua vida familiar que aceita trabalho como "arquivista", ou até como secretário, de Millhouse Pascal, um velho misterioso que vive numa mansão, no Alentejo, com três netos e um jardineiro igualmente enigmático.

Millhouse Pascal é uma espécie de herói obscuro do século XX. Relacionando-se com espionagem, guerras, segredos de passado e pessoas marcadas pela História.

O narrador, acaba por se envolver neste mundo, com alguma reserva, mas acaba por se revelar fiel e prestável.

Ele acaba por se apaixonar por Camila, uma das netas de Millhouse Pascal. Parece um ato insignificante, mas na descrição do ambiente do livro, percebemos como é impactante. Acontece que Camila desaparece depois de uma viagem a Nova Iorque. E esta situação desencadeia uma investigação pessoal do narrador, que vai a fundo puxar fios de mistério, ausências, sombras familiares e episódios históricos.

De alguma forma, as três vidas do título refletem-se nas três fases da existência do narrador: a da ilusão e da descoberta; a da desintegração; e, por último, o da maturidade, que implica o regresso à "realidade" com a soma das perdas que foi sofrendo. O reflexo de uma vida marcada por cicatrizes, memórias, aceitação e pela dificuldade de viver no mundo real com segredos.

No fim, os mistérios são esclarecidos e o narrador reconcilia-se consigo mesmo e com a sua trajetória. No entanto, senti que foi mais apressado do que desejava.
Muitas camadas da história se foram acumulando e, por isso, é normal que o leitor sinta a necessidade de saborear lentamente o desvendar do mistério e o amarrar de todas as pontas, mas o autor opta por fechar relativamente rápido.

Ainda assim, o facto de sentir que o fim poderia ter sido mais desenvolvido não diminui o (muito) que me agradou: a escrita, o ambiente, a intensidade emocional, a imaginação e as personagens.

Tordo domina bem a ambiguidade, entre o que se vê e o que se intui, entre o visível e o oculto. Consegue manter ao longo da narrativa uma tensão crescente, uma sedução do mistério, assim como uma proximidade emocional à dor das personagens, e isso faz com que a leitura seja memorável.

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Outubro 02, 2025

O caos na comédia certa.

Há muito nesta peça que me agrada. Shakespeare revela bem o seu talento para a comédia de situação, para o humor verbal, para personagens que são falíveis, extravagantes e carismáticas.

As promessas académicas soam quase como nobres, mas inevitavelmente desmoronam. Ver os homens deslizar do voto austero para declarações apaixonadas, trocar cartas e planear encontros, é muito divertido.

Os personagens trazem leveza, alguns erros e muitos risos. Mostram que o amor e a vaidade não pertencem apenas aos poderosos ou aos nobres.

Para além disto, Shakespeare combina momentos lindos de pura poesia com o ridículo e o trivial. E, honestamente, acho que o contraste é o segredo da graça desta obra.

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