Este livro fez-me perceber o porquê de João Tordo ser merecedor do prémio Saramago e do porquê de ser um escritor tão admirado. Admito que ainda não me tinha ocorrido o clique com o autor. Os livros anteriores que li acabaram por me saber a pouco e fui adiando o reencontro. Mas agora que aconteceu, valeu bem a pena.
As Três Vidas conta a história de um personagem de origens modestas e com algumas dificuldades na sua vida familiar que aceita trabalho como "arquivista", ou até como secretário, de Millhouse Pascal, um velho misterioso que vive numa mansão, no Alentejo, com três netos e um jardineiro igualmente enigmático.
Millhouse Pascal é uma espécie de herói obscuro do século XX. Relacionando-se com espionagem, guerras, segredos de passado e pessoas marcadas pela História.
O narrador, acaba por se envolver neste mundo, com alguma reserva, mas acaba por se revelar fiel e prestável.
Ele acaba por se apaixonar por Camila, uma das netas de Millhouse Pascal. Parece um ato insignificante, mas na descrição do ambiente do livro, percebemos como é impactante. Acontece que Camila desaparece depois de uma viagem a Nova Iorque. E esta situação desencadeia uma investigação pessoal do narrador, que vai a fundo puxar fios de mistério, ausências, sombras familiares e episódios históricos.
De alguma forma, as três vidas do título refletem-se nas três fases da existência do narrador: a da ilusão e da descoberta; a da desintegração; e, por último, o da maturidade, que implica o regresso à "realidade" com a soma das perdas que foi sofrendo. O reflexo de uma vida marcada por cicatrizes, memórias, aceitação e pela dificuldade de viver no mundo real com segredos.
No fim, os mistérios são esclarecidos e o narrador reconcilia-se consigo mesmo e com a sua trajetória. No entanto, senti que foi mais apressado do que desejava.
Muitas camadas da história se foram acumulando e, por isso, é normal que o leitor sinta a necessidade de saborear lentamente o desvendar do mistério e o amarrar de todas as pontas, mas o autor opta por fechar relativamente rápido.
Ainda assim, o facto de sentir que o fim poderia ter sido mais desenvolvido não diminui o (muito) que me agradou: a escrita, o ambiente, a intensidade emocional, a imaginação e as personagens.
Tordo domina bem a ambiguidade, entre o que se vê e o que se intui, entre o visível e o oculto. Consegue manter ao longo da narrativa uma tensão crescente, uma sedução do mistério, assim como uma proximidade emocional à dor das personagens, e isso faz com que a leitura seja memorável.
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